Novidades

Certo dia uma jovem senhora se senta ao meu lado. Poderia passar-se desapercebida a mim, porém nos tornamos velhas conhecidas que nunca se viram e não mais se virão. Ela me conta todas as novidades de uma longa jornada em que supera o desgaste físico, mas deixou a alma intacta. Bela educação enclausurada teve. Se transformou em prendada, muitas antes e depois dela estavam prontas, perfeitamente domesticadas para trabalhar no lar. Bem arranjadas com militares, políticos, empresários. Príncipes do mundo moderno tirando-as do calabouço para o alto do castelo. Fui uma paciente ouvinte inquieta tentando imaginar tal situação com insucesso. Contudo, o que mais insistia em rondar a minha mente eram os "porquês": por que contar pra mim?, por que ter acontecido de um jeito tão... "do nada"?, por que isso foi acontecer?, por que algo que aconteceu "do nada" tem que ter alguma explicação ou significado? por que tais situações soam sobrenaturais e misteriosas?.
E segue a jovem senhora solteira. Conta as últimas dos últimos anos. Não casou-se com um casado mesmo ele querendo que o fizesse, mandou-o de volta para a família e o agradeceu pelos serviços prestados durante duas décadas. Seguiu como secretária, amante, ovelha negra de sua geração, que lamenta não poder manter tanto contado com os sobrinhos. Viver sozinha não é sina, sofrimento... é sossego. Se sente satisfeita pelo que fez, não tem planos e se ao fim sua vida quiser ir, seguirá em frente. Seus familiares, que devem estar mais acostumados a enxergar sua alma que idade, prevê a ela mais vida. Entretanto, seu corpo confessa a mim com modéstia que prefere não fazer contas. Fiquei admirada, me dei conta do que poderia me afetar de alguma forma: com tantas coisas mostrando e pessoas seguindo caminhos tão parecidos, muitas vezes me ocorria uma sensação perturbadora de que tudo, por mais que desviasse no caminho, sempre voltava a ele, e se não voltasse, estaria perdido. Sempre ingênua continuo...

Tempestade

Do alto de uma montanha
Enquanto a terra firme resiste às ondas
Enquanto o vento  procura seu lugar
Enquanto o mar teima em seguir

Jogo palavras no ar
Algumas caem no mar
Outras vão ao chão

Lista de Presentes

Quero assassinar meus medos
Estrangular os apegos
Trair a sorte
Viver na morte

Abandonar os conhecidos
Seguir os instintos
Esquecer os vícios
Despertar os sentidos

Ouvir o silêncio
Guardar o bom-senso
Falar tudo que penso

Cancelar compromissos
Me entregar ao ócio
Até que consiga me mover.

Desmistificação

         Sou uma criatura que fui cercada de fantasmas. Eles me assustavam tanto que acabei sucumbindo ao mundo das cores. Dessas cores dei formas, fiz rabiscos e, finalmente, meu mundo, meu paraíso desértico. Nesse lugar só havia o dia e o crespúsculo - e que nos momentos em que não tinha cor, os fantasmas voltavam pra saber se eu estava comportada, minha cara apática era engraçada pra eles. A falta de traços e tons tristes, traziam semblantes de satisfação, saciava a sede do nada que em mim se abria e que viam neles mesmos. Meus encontros com essas criaturas eram sempre em ambientes claustrofóbicos, parecia que estava sob olhares interrogativos de desprezo.
          Desejei a amizade deles, mas viviam muito distante e mesmo de perto eram muito altos. Praticamente me dirigia a eles como um vassalo a um nobre. Percorrendo aqui e alí; vi uns seres iguais a mim, contudo eles não conseguiam enxergar os fantasmas, ignoravam a altura e a autoridade deles. Resolvi, espontânea e rapidademente, me aproximar daqueles seres tão semelhantes à minha alma. Comecei a rabiscar toda a paisagem que construí - a paisagem plana, colorida pelas mesmas cores com uns espaços em branco. Curvas, retas, círculos, ondas: tudo foi tomado pelo rabiscos. Estes funcionaram como cordas alucinadas lançando tudo para o nada, e daí por diante a agitação, a confusão e a incerteza perpetuaram.

Linha Reta

Mente ansiosa. Pensando em tudo o que estará prestes a fazer. Ainda meio tonta, tenta finalmente acordar de vez. Passa por todo um ritual. Pensa que todos a veem, serva do pensamento alheio. Passa pela rua como se tivesse prestes a desaparecer a qualquer momento. Eis que encontra o salvador de sua pátria em fragalhos. Carrega pesos de uma longa viagem e ela ainda se dá ao luxo de o salvador dar conta de tudo. Ele vai embora. Vai como se nem tivesse um dia aparecido.  Seu universo entra em colapso e tudo que lhe resta é dormir profundamente, mas ela acorda. O barulho das pessoas em volta a inquieta a continuar agonizando em vida. Sai e ninguém a vê, ninguém nunca a viu e pensar assim já é suficiente agora, quer ficar invisível um pouco. Vê uma tralha jogada na rua com braços e pernas e lembra que quer salvar o mundo mas se o fizer será a última a pular do barco e pode ser tarde demais para pular... Alguém a avista no alto de seu exagerado drama sentimental e consegue ver beleza... Nos olhos caídos, nos braços presos, no rosto virado, viu beleza... Porém, invisível para si mesma, nem ao menos percebe que o mundo gira. E continua sua trilha como um jato.

Contraponto

Lembrar é alívio da mente
Tortura do físico
Aceitar é ponderar-se
Escravizar-se
Esperar é inquietude
Paciência é pedida

A passividade
A comtemplação
Nada se questiona
Tudo se quer

Esteve viva por muito tempo
Mas quando o encontra
Fica à beira da morte
E se dá conta que vive

A estupidez em que se encontra
À torna um zumbi
Num cenário monótono
No limite entre o deleite e a dor.

As Estrelas

As estrelas
Tão faladas
Metaforizadas
Representadas

Sou mais um indivíduo
Que digo: como brilham
Como encantam
Como são distantes

E por isso, todos querem alcançar
E as quero alcançar, não me importa
se são planetas que se encondem
na luz, não me importa a mil anos-luz
a vagar longe aqui
Se não existe mais e só o que é visível restou

Como é firme a força da gravidade
Como é duro o chão em que só
o atrito me faz andar
em que tenho que me equilibrar

Vou ficar aqui sonhando
Pra ver se vou andando
Ao encontro de uma sombra
pra ficar

Construção

Tudo tem um começo. Pode ser difícil. Causar uma aflição. De repente uma ideia parece. Não é suficiente. Uma ponte que liga o nada a lugar nenhum. Mas a ponte existe e encontra uma partida, porém está sem o outro lado. Sem ele não há um significado, não pode ser uma plena ponte. E vai seguindo. E para. Não desiste. Só insiste em pausar para traçar sua trilha. Quando entende o seu início, vai até o meio e acha o seu fim.
Ah, o outro lado... a imaginação se encarrega de fazer os laços. A cada passo, um tropeço, um nó desatado. Mas os nós brotam. Nem todos desmancham. Não era o fim. O fim se foi. E o começo volta. Dessa vez com curvas e com placas que nem sempre indicam saídas mas outros caminhos se embrenhando numa rede para aprender a lidar com ela e chegar ao final para o outro começo.
Me faço entender, mas não faço ninguém me entender. Só leia e compreenda o que sentir melhor. Esse texto tem pé e cabeça, sim. Contudo, um corpo desengolçado, mas um corpo.

Fábrica de moldes

O convencional
Convence
O convencional
Seleciona
O convencional
Emociona
O convencional
Imposiciona
O convencional
Repete

A foto e a borda
A borda prende a foto
A foto preenche a borda

A roupa entende o corpo
Um corpo tenta entender a roupa

Numa noite

Cruzei ruas
Muitos passos
Sem pés

Segurava pesos no alto
da cabeça
Se perde o vento
Do medo que entra
nos olhos

Em direção às ondas
do profundo breu
Calmaria espera
E eu à espreita

Indo e ficando