Espectador

Soa o alarme
Acordo tarde

Uma forma amorfa de mim
Anda de um lado a outro
Num cabo de guerra mímico
A ansiedade

Outro ser começa a fazer ligações
Dá suas melhores respostas
Movimenta-se juntando as questões
E parte apressada pela porta
A responsabilidade

Juntas me arrastam além do chão
Cada uma de um lado
Observo em vão

É um momento histórico
Um fenômeno raro:
Não me afetei,
Tranquei-as no armário
E sai por aí

O encontro

Novas vozes, novos sorrisos
Novas palavras

O mesmo, não sendo aquele de sempre
Renovado na troca
Na soma
No entrelace

De palavras
De ideias

Me espalho em frases
E aquelas que encontrar
Se te agradar

À vontade está
Para me achar

Sem palavras

Uma porta aberta
Se fecha.

Agora as palavras
Não saem.

Outras
Não entram.

Não falam.

Nada.

A linha do tempo

O presente é a carne
O passado é o osso

O espírito
O fantasma

Encarar
Lamentar

O cavalo

          Fui a um sítio e me deparei com cavalo. Sem cela, só puxado por uma corda, andando em círculo, de repente o vi pular a cerca. Segue rápido, às vezes para. Não sabe se segue à esquerda ou a direita. Algumas pessoas o cercam e ele desiste. Volta puxado pela corda, volta para o estábulo.
         Depois de dias quase sem me mexer, sem as distrações do mundo moderno, enlouqueci. Corri. Fugindo do nada. Até onde minhas pernas aguentam. Tombei na grama como se sobrevivesse para respirar. E o cavalo andava tranquilamente explorando, vagando sem proprósito.
          Mas será que o propósito de andar em círculos e lhe botar uma cela é mais cabível do que vagar? Ele volta para o estábulo no fim da tarde. Eu não quero estar em lugar nenhum, porque odeio o silêncio que me faz ter que pensar no que devo fazer e no não devia ter feito ou de não exagerar. Sempre agir com propósito, nunca por vontade. E ele segue em círculos, dessa vez não foge. Com o tempo lhe colocam a cela e finalmente pode conduzir alguém.
          Eu quebrei dois copos e botei a culpa na distração. Na verdade foi tédio. Mas quem iria entender?

Um triz

Luis, foi por um triz
De repente vi um olhar gris
Mas parti às seis

E quando olhei
Já estava à mais de milhares de seis
Agora espero de novo minha vez.

Da terra à terra

Olhos de mar
Teu olhar a me carregar
Tuas mãos a me guiar
Me leve para o lado de lá

Me abrace num laço
Que te levo à lua
À noite nua
Ao céu que se abre
E antes que eu me acabe
Me invade

Te guardo como semente na terra
Regando pra manter
Regando pra crescer
Regando pra te ver
Esperando florescer

Pessoa e personagem

É a plateia por trás do palco
Que ajuda a fazer o espetáculo

Anseia a co-participação numa cena
Para que a fantasia tropece na realidade
E quebre o dente.

Para que na dor que se sente
Encontrar na dor que nunca sentiu
Uma mão amiga a socorrer.

E com teus olhos a me ver
E com meu coração a se abrir
A cortina se abra
Para o final feliz.

Destroços

Cenas que reprisam em minha cabeça
Disparadas batidas que animam o coração
A vontade sufocante que provoca
e afoga meus olhos
Uma folha em que vou esconder todas palavras que quero dizer,
mas não vou dizer

Minhas palavras são mapas
Mas não quero que alcance esse terreno badio
Por favor, não entre
Há um coração em manutenção
Será preciso implodí-lo
Para reconstruí-lo
Ele foi construído em terreno movediço
Por erro de cálculo insistiram
Em fazê-lo grande
E por todos agora é considerado um elefante
Branco
Meio acinzentado
Pouco frequentado
Mais um num grande cenário

Egos e ecos

Numa montanha de enganos me soterraram
Quando saí de lá não tinha mais voz
Pois só eu ouço minha voz
Será que até invisível também?
Rondo, gesticulo, e só falam
Nunca se calam

Nunca ouvem
Se olham
Se concordam
Nunca erram