O presente é a carne
O passado é o osso
O espírito
O fantasma
Encarar
Lamentar
Fui a um sítio e me deparei com cavalo. Sem cela, só puxado por uma corda, andando em círculo, de repente o vi pular a cerca. Segue rápido, às vezes para. Não sabe se segue à esquerda ou a direita. Algumas pessoas o cercam e ele desiste. Volta puxado pela corda, volta para o estábulo.
Depois de dias quase sem me mexer, sem as distrações do mundo moderno, enlouqueci. Corri. Fugindo do nada. Até onde minhas pernas aguentam. Tombei na grama como se sobrevivesse para respirar. E o cavalo andava tranquilamente explorando, vagando sem proprósito.
Mas será que o propósito de andar em círculos e lhe botar uma cela é mais cabível do que vagar? Ele volta para o estábulo no fim da tarde. Eu não quero estar em lugar nenhum, porque odeio o silêncio que me faz ter que pensar no que devo fazer e no não devia ter feito ou de não exagerar. Sempre agir com propósito, nunca por vontade. E ele segue em círculos, dessa vez não foge. Com o tempo lhe colocam a cela e finalmente pode conduzir alguém.
Eu quebrei dois copos e botei a culpa na distração. Na verdade foi tédio. Mas quem iria entender?
Luis, foi por um triz
De repente vi um olhar gris
Mas parti às seis
E quando olhei
Já estava à mais de milhares de seis
Agora espero de novo minha vez.
Olhos de mar
Teu olhar a me carregar
Tuas mãos a me guiar
Me leve para o lado de lá
Me abrace num laço
Que te levo à lua
À noite nua
Ao céu que se abre
E antes que eu me acabe
Me invade
Te guardo como semente na terra
Regando pra manter
Regando pra crescer
Regando pra te ver
Esperando florescer
É a plateia por trás do palco
Que ajuda a fazer o espetáculo
Anseia a co-participação numa cena
Para que a fantasia tropece na realidade
E quebre o dente.
Para que na dor que se sente
Encontrar na dor que nunca sentiu
Uma mão amiga a socorrer.
E com teus olhos a me ver
E com meu coração a se abrir
A cortina se abra
Para o final feliz.
Cenas que reprisam em minha cabeça
Disparadas batidas que animam o coração
A vontade sufocante que provoca
e afoga meus olhos
Uma folha em que vou esconder todas palavras que quero dizer,
mas não vou dizer
Minhas palavras são mapas
Mas não quero que alcance esse terreno badio
Por favor, não entre
Há um coração em manutenção
Será preciso implodí-lo
Para reconstruí-lo
Ele foi construído em terreno movediço
Por erro de cálculo insistiram
Em fazê-lo grande
E por todos agora é considerado um elefante
Branco
Meio acinzentado
Pouco frequentado
Mais um num grande cenário
Numa montanha de enganos me soterraram
Quando saí de lá não tinha mais voz
Pois só eu ouço minha voz
Será que até invisível também?
Rondo, gesticulo, e só falam
Nunca se calam
Nunca ouvem
Se olham
Se concordam
Nunca erram
O Sentido viaja para sentidos diversos
Universos abrem as portas de suas casas
De repente, são invadidos
Vândalos quebram, rasgam...
Juntam tudo, ateiam numa fogueira
Que derrete a lógica de cristal colorido por imagens em pedaços
Que não se encaixam mais, como se nunca fossem unidos
Bagunçam o tempo que fora catalogado cuidadosamente em prateleiras
Fazem da memória uma criança:
ora assustam
ora divertem
ora escondem sua irmã mais nova Lembrança
!
Volto para o mundo:
o alarme tocou
Será que choveu?
Será que a luz acabou?
Será que todos saíram?
Ou será que fiquei surda?
Por que esse silêncio me faz perguntas?
Por que eu questiono esse silêncio?
Mas por que essas interrogações?
Por que me preocupo com a ausência?
Será que é com o que não há lá fora?
Ou com o que há em mim?
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