Um "DR" com a mente
Numa noite de sono
O Sentido viaja para sentidos diversos
Universos abrem as portas de suas casas
De repente, são invadidos
Vândalos quebram, rasgam...
Juntam tudo, ateiam numa fogueira
Que derrete a lógica de cristal colorido por imagens em pedaços
Que não se encaixam mais, como se nunca fossem unidos
Bagunçam o tempo que fora catalogado cuidadosamente em prateleiras
Fazem da memória uma criança:
ora assustam
ora divertem
ora escondem sua irmã mais nova Lembrança
!
Volto para o mundo:
o alarme tocou
?
Será que choveu?
Será que a luz acabou?
Será que todos saíram?
Ou será que fiquei surda?
Por que esse silêncio me faz perguntas?
Por que eu questiono esse silêncio?
Mas por que essas interrogações?
Por que me preocupo com a ausência?
Será que é com o que não há lá fora?
Ou com o que há em mim?
A poética feminina
Existe um espaço de tempo considerável entre fazer um documento e renová-lo.
Existe um outro espaço de tempo regulado pelo coração.
Só mulheres têm esse relógio desregulado, inquieto
Que só descansa com palavras.
Não tem prazo de validade
Nem período de renovação
O inesperado é bem-vindo
Plante cuidadosamente o pé-de-feijão
E terá uma plantação.
Miragem
Meus olhos transbordam
Olho o horizonte transparente
Tudo é verdade
E vivo
Quando diante de mim
Tudo é imagem que infiltra
A mente
Gira num carrossel
colorido
Cultivado
Guiado
Guardado
em mim
Rebelião
As palavras não soam como antigamente
Antes colaboravam lindamente
Agora me atrasam
Se recusam a formarem-se em fila
E muitas fogem
somem
Passam diante de mim
Exibidas
Saem de cena ligeiras
Cruéis
E sequestram as ideias
Elas são vítimas
de mais um comparsa
Na verdade, um veículo
O pensamento não é um carrossel
É o trem descarrilado que alcança o penhasco
Haverão outros partindo
Mas não posso perder a hora.
Da janela
Vasculho uns momentos atrás
Relembro uns futuros repetidos
Uma concha de retalhos
Insiste em me agasalhar
Assistindo a paisagem
Sendo levada pelo ar
No meu canto
Ao meu lado
Não me importa
Centenas de prédios correm
E portas se abrem
Momentos se espalham
Ainda está ao meu lado
Não quero saber
Nem dos que estão
Dos que saíram
Ou entraram
Vou voltar
Ao meu lugar
Ângulos
É única
Uma carta manipulada
O truque do coelho
Que aparece na cartola
Eis que lá está
A carta e o coelho
Sempre ao final
Numa estrada
Há saídas, curvas, atalhos, retornos
Descidas, subidas, idas, voltas, acostamentos
Mortes, vidas
Asfalto, pneus
Olhando para o céu
Uns veem nuvens
Outros imagens
E todos reclamam
Quando cobrem o sol
Ainda mais quando ameaça
Cair água do céu
Ninguém quer ouvir relâmpagos
Então a chuva sonorizando o dia frio
Cria conforto pra aproveitar o que está.
Audição
A mente na ponta dos dedos.
O coração na ponta da língua.
É quando nunca dá para evitar
É quando nunca dá para mensurar
Uma palavra que não é palavra
É só um som por trás da raiva
Um desabafo falado não definido
Um caco de vidro que ousou ficar no caminho
E provocou o grito.
Ainda dá para juntar as melhores frases que há
Posso ter as melhores ideias
Mas ter uns dos piores pensamentos
Se propaga súbito
Entranha num susto
E corre pra longe
E não se espera que volte.
Palavras
Ah, que tanto tenho que pensar
Tanto contudo nem tanto que fazer
Tempo tardio do dia pra tentar
Trilhar o trajeto da mente que tal palavras tomam.
Tratam de trabalhar juntas
Traçam labirintos
Traem suas tradicionais escritas
Trazem variadas saídas.
E daí?
Me levarão até tua mente?
Tocarão teu coração?
Tratarão de acalmar-me?
E trazer-te?
