Desmistificação

         Sou uma criatura que fui cercada de fantasmas. Eles me assustavam tanto que acabei sucumbindo ao mundo das cores. Dessas cores dei formas, fiz rabiscos e, finalmente, meu mundo, meu paraíso desértico. Nesse lugar só havia o dia e o crespúsculo - e que nos momentos em que não tinha cor, os fantasmas voltavam pra saber se eu estava comportada, minha cara apática era engraçada pra eles. A falta de traços e tons tristes, traziam semblantes de satisfação, saciava a sede do nada que em mim se abria e que viam neles mesmos. Meus encontros com essas criaturas eram sempre em ambientes claustrofóbicos, parecia que estava sob olhares interrogativos de desprezo.
          Desejei a amizade deles, mas viviam muito distante e mesmo de perto eram muito altos. Praticamente me dirigia a eles como um vassalo a um nobre. Percorrendo aqui e alí; vi uns seres iguais a mim, contudo eles não conseguiam enxergar os fantasmas, ignoravam a altura e a autoridade deles. Resolvi, espontânea e rapidademente, me aproximar daqueles seres tão semelhantes à minha alma. Comecei a rabiscar toda a paisagem que construí - a paisagem plana, colorida pelas mesmas cores com uns espaços em branco. Curvas, retas, círculos, ondas: tudo foi tomado pelo rabiscos. Estes funcionaram como cordas alucinadas lançando tudo para o nada, e daí por diante a agitação, a confusão e a incerteza perpetuaram.

Linha Reta

Mente ansiosa. Pensando em tudo o que estará prestes a fazer. Ainda meio tonta, tenta finalmente acordar de vez. Passa por todo um ritual. Pensa que todos a veem, serva do pensamento alheio. Passa pela rua como se tivesse prestes a desaparecer a qualquer momento. Eis que encontra o salvador de sua pátria em fragalhos. Carrega pesos de uma longa viagem e ela ainda se dá ao luxo de o salvador dar conta de tudo. Ele vai embora. Vai como se nem tivesse um dia aparecido.  Seu universo entra em colapso e tudo que lhe resta é dormir profundamente, mas ela acorda. O barulho das pessoas em volta a inquieta a continuar agonizando em vida. Sai e ninguém a vê, ninguém nunca a viu e pensar assim já é suficiente agora, quer ficar invisível um pouco. Vê uma tralha jogada na rua com braços e pernas e lembra que quer salvar o mundo mas se o fizer será a última a pular do barco e pode ser tarde demais para pular... Alguém a avista no alto de seu exagerado drama sentimental e consegue ver beleza... Nos olhos caídos, nos braços presos, no rosto virado, viu beleza... Porém, invisível para si mesma, nem ao menos percebe que o mundo gira. E continua sua trilha como um jato.

Contraponto

Lembrar é alívio da mente
Tortura do físico
Aceitar é ponderar-se
Escravizar-se
Esperar é inquietude
Paciência é pedida

A passividade
A comtemplação
Nada se questiona
Tudo se quer

Esteve viva por muito tempo
Mas quando o encontra
Fica à beira da morte
E se dá conta que vive

A estupidez em que se encontra
À torna um zumbi
Num cenário monótono
No limite entre o deleite e a dor.

As Estrelas

As estrelas
Tão faladas
Metaforizadas
Representadas

Sou mais um indivíduo
Que digo: como brilham
Como encantam
Como são distantes

E por isso, todos querem alcançar
E as quero alcançar, não me importa
se são planetas que se encondem
na luz, não me importa a mil anos-luz
a vagar longe aqui
Se não existe mais e só o que é visível restou

Como é firme a força da gravidade
Como é duro o chão em que só
o atrito me faz andar
em que tenho que me equilibrar

Vou ficar aqui sonhando
Pra ver se vou andando
Ao encontro de uma sombra
pra ficar

Construção

Tudo tem um começo. Pode ser difícil. Causar uma aflição. De repente uma ideia parece. Não é suficiente. Uma ponte que liga o nada a lugar nenhum. Mas a ponte existe e encontra uma partida, porém está sem o outro lado. Sem ele não há um significado, não pode ser uma plena ponte. E vai seguindo. E para. Não desiste. Só insiste em pausar para traçar sua trilha. Quando entende o seu início, vai até o meio e acha o seu fim.
Ah, o outro lado... a imaginação se encarrega de fazer os laços. A cada passo, um tropeço, um nó desatado. Mas os nós brotam. Nem todos desmancham. Não era o fim. O fim se foi. E o começo volta. Dessa vez com curvas e com placas que nem sempre indicam saídas mas outros caminhos se embrenhando numa rede para aprender a lidar com ela e chegar ao final para o outro começo.
Me faço entender, mas não faço ninguém me entender. Só leia e compreenda o que sentir melhor. Esse texto tem pé e cabeça, sim. Contudo, um corpo desengolçado, mas um corpo.

Fábrica de moldes

O convencional
Convence
O convencional
Seleciona
O convencional
Emociona
O convencional
Imposiciona
O convencional
Repete

A foto e a borda
A borda prende a foto
A foto preenche a borda

A roupa entende o corpo
Um corpo tenta entender a roupa

Numa noite

Cruzei ruas
Muitos passos
Sem pés

Segurava pesos no alto
da cabeça
Se perde o vento
Do medo que entra
nos olhos

Em direção às ondas
do profundo breu
Calmaria espera
E eu à espreita

Indo e ficando

Pulsações

Muito de sonho
Faz cair nas nuvens
Muito de chão
Faz enterrar no vão
É por isso que andar no meio
É subir e descer
Ir em direção à luz
Sempre envolto de sombra
Viver intensamente
Morrer constantemente

Parada em meio à ventania
das horas
Barulho mudo
Seguindo a linha reta onde
O destino faz a curva
Me leva sem voltar

Cada passo em frente
Foi o caminho percorrido
Às vezes vou
Talvez evite
Nunca volto
Sempre sigo

Refúgio

Já não bate à minha porta
Já não olha a minha cara
Caída, não tinha mais onde
apoiar, então rastejo e insisto

Quando levanto dou as costas
Dou o primeiro passo
O primeiro sorriso

A dança segue
A música volta
O casal gira
O passado se impõe

Estirada volto a me cobrir
Me recolho à concha
Mergulho fundo, contra a superfície

Círculos e curvas

Vivo dentro do concreto de quadro paredes
Meu movimento se dá à carcaça de quadro rodas
O caminho é previsto e sem desvio.

Pessoas vem, entram dentro de peneiras temporais
Umas ficam, outras vão
Amores vem como brisa,
Vão como os dias
Quando não se espera em vão.

Resta eu em círculos, resta os grãos traçando caminhos,
Mais o que ainda não é,
O que está,
O que não há.